Súbito, entre as minhas divagações e pensamentos, um agudo silvo se faz ouvir; as escadas são recolhidas, as amarras são soltas e o pesado monstro estremece sobre si mesmo, como se açoitado fosse por uma força oculta e misteriosa. Outro silvo se ouve, seguido de mais outro, e o navio, pesada e lentamente, começa a separar-se do cais, ao mesmo tempo que centenas de lenços brancos se erguem no espaço, quer das mãos dos que ficam, quer das dos que partem.
Há lágrimas nos rostos, mormente dos que ficam. Também há sorrisos e gritos, que se confundem num uníssono ensurdecedor, porque estes momentos são sempre dolorosos e têem,
como as grandes coisas da vida, um poderoso fundo de sensibilidade humana. Agora sou eu que regresso, mas quando partia há aproximadamente três anos, nunca havia sentido tão estritamente ligado ao nosso próprio Eu, a forte corrente de sensibilidade humana e Universal.
Era então de noite; as ruas da cidade estavam apinhadas de gente, que de ambos os lados se aglomerava, e nós, numa marcha apressada e desordenada, seguíamos para a estação de caminho de ferro. A cavalaria mantendo à distância aqueles curiosos; e quem eram esses curiosos? As famílias e os amigos daquelas oito centenas de homens que partiam para outro continente, para eles ignoto, desconhecido. Nunca senti uma dor tão profunda percorrer-me todo o ser. Eu não chorava, mas sentia os olhos humedecidos e a testa em suores frios. Os gritos eram tantos, de todos os lados, que eu ía completamente pungido. Dir-se-ia que partíamos para a mais terrível carnificina. O equipamento causava uma impressão, o mais desagradável possível em todos os que presenciavam as nossas partidas; e eles eram tantos, constituiam uma grande parte da população duma cidade de gente obreira, hospitaleira e pacífica.
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