Diário de Serafim Pereira - continuação

Quando o comboio transpôs a ponte, essa gente, esse povo, revela-nos, com um carinho sem igual, o adeus da sua despedida: - Aquela gente havia ficado para trás, somente se ouvia, ao longe, os ecos dos gritos da sua dor, mas aqueles que viviam junto ao rio tinham acendido archotes e estes eram às centenas e nós, do comboio lúgubre, olhavamos este espectáculo que nos comoveu ao extremo.
Então chorei; não pude mais suportar a minha dor. Longos minutos durous este estado anormal do meu ser e quando recobrei de novo a serenidade e a resignação, o Porto, a minha terra natal havia desaparecido ante as pesadas e negras sombras da mais horrível noite da minha vida. Desde então nunca mais chorei, a minha dor havia ultrapassado os seus limites e serenamente, resignadamente, abandonei-me ao meu destino.
Mas, como eu ia a dizer, os gritos, os sorrisos e as lágrimas confundiam-se como numa dança macabra da selva ardente, mas o navio monstruoso e indiferente, separa-se cada vez mais em direcção ao mar largo e imenso, em busca da Terra de Promissão. Os lenços frenéticos acenam sempre e a cidade foge-nos a pouco e pouco e cada vez mais rapidamente, como com medo que a levemos também para a Metrópole, para a Europa, entre a loucura infernal do ferro e fogo. Este espectáculo prolonga-se ainda por mais alguns minutos, até que, já ao largo, distante, aquele povo começa a dispersar-se, os brancos lenços são recolhidos e eu fitando o mar azul e a argilosa costa, reato de novo os meus pensamentos, pensando em ti e no meu amor de vinte anos...

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