Diário de Serafim Pereira - continuação

Parece-me que há não sei quê que deixarei para sempre, que me fez sofrer, que ma sacrificou e que agora me vê partir quasi com esquecimento e sem o menor vislumbre de saüdade.
Mas eu olho, olho e contemplo o mar, o céu, o Sol e as próprias sombras, mas o meu pensamento, avaro e indomável tudo galga e vence, e só a tua imagem vai buscar lá longe, tão distante, na terra de promissão.
Estou alheado de tudo que me cerca, e até me chego a esquecer que entro a bordo e que, d'aqui a pouco, só as imensidades de mar e céu serão o espectáculo que a minha alma nostálgica, e o meu coração oprimido, contemplarão.
Penso em ti. E uma a uma, todas as particularidades que nos dizem respeito reüno num todo. Antevejo-te sempre bela e altiva, impassível e serena, constituindo todo o meu pensamento, toda a minha preocupação. Tu és a deusa que eu adoro, és a vida que me alenta, és a alegria, és toda a minha felicidade... E tu que fazes? Pensas em mim? Lembrar-te-ás ainda daquele que, há três anos partiu, julgando que para todo o sempre? Amarás outro? Já não existe para ti o meu amor? Enigmas cruéis, terríveis cogitações!...

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