Diário do meu pai - Serafim Pereira

Vou iniciar hoje a transcrição de um Diário que o meu pai escreveu, na sua viagem de barco, de regresso de Moçambique, para onde tinha sido mobilizado na sua vida militar e onde esteve mais
de 2 anos.

Nunca o li, pelo que à medida que o escrevo aqui, vou tomando conhecimento dele:

15 de Outubro de 1944
À saída do porto de Lourenço Marques

«A TI»

O João Belo, largando da sua magna chaminé densos rolos de fumo, está pronto a levantar ferro. A pouco e pouco o povo vai-se amontoando, chegando-se cada vez mais para junto do navio, do qual apenas o separa uma curta faixa de mar. Ao longe, no alto, a esguia e branca torre da Catedral ergue-se senhorilmente, como a dominar, não só a cidade, como o porto, com os seus guindastes e os seus navios.
Toda a volta, extensão do comprido cais está apinhada de gente e o João Belo, pesado e silencioso, aguarda impaciente o momento da partida. São dez horas e os expedicionários, também impacientes, denunciam a sua fremente ansiedade, ora acenando para alguém seu conhecido, ora contemplando mais uma vez ainda a cidade, que no seu seio os reteve durante trinta compridos meses. Eu fito tudo, a multidão, o cais, as saliencias altivas da sertaneja cidade, os negros carregados e dolentes confundindo-se com o todo escuro das pesadas noites de inverno; e procuro lubrigar, para além daquele povo, daquela gente, qualquer coisa que não sei explicar; tudo me parece um sonho, tudo me parece irreal, intangível, ethéreo e volúvel.

Continuarei outro dia

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