Diário de Serafim Pereira - cont.

E assim, sem rodeios, com o coração nas mãos e olhos fitos nos olhos, disse-te o mais directa e sinceramente possível, o fim que me levava até junto do muro, onde bela e altiva (docemente) te debruçavas. Ainda hoje, e já lá vão quatro anos, quando penso em ti e nesse muro velho e musgoso, quedo-me em meditação profunda e pergunto-me, baixinho: - Não seria, Deus meu, aquele lugar, aquele muro, o muro das lamentações que da Palestina viesse até nós? Sim, Rosa, talvez esse muro seja hoje para nós o muro das lamentações, só com a diferença de eu nunca mais lá ter ido, enquanto que tu, não sei, mas talvez até o tenhas amaldiçoado por mim e pelo meu amor.
Amaldiçoado por mim e pelo meu amor; estas palavras que o Oceano me está ouvindo, murmurar baixinho, fazem-me relembrar o teu ódio, sob cuja efígie atravessava este mesmo mar, há trinta compridos meses, em sentido contrário, em cumprimento dum bem alto e difícil dever. Procurava então esquecer-te para sempre. E durante esses longos e dolorosos meses, não escrevi uma única vez o teu nome. Não era porque cometesse sacrilégio, mas somente porque se tornava necessário olvidar-te expulsando-te para longe do meu coração. Tentei e consegui, pois nunca mais o meu punho traçou no papel as letras que formam a tua graça. Mas daí esquecer-te, não; não foi possível.

No comments: