Diário de meu pai - cont.

Estava desvendada a incerteza, mas, em compensação, um mal-estar que se havia de prolongar por muitos dias. A Vida apresentava-se-me, sob todos os aspectos pesada, difícil, quasi impossível; mas não havia ainda chegado o fim e, portanto, teria de continuar na senda do meu viver.
Foi então que me foi dado saber qual a causa do teu ódio. Mas terias razão para isso? Ignora-se até que ponto pode ir a sensibilidade humana, apenas se sabe que é relativa na densa infinidade dos seus átomos. Não se deve nunca dar a sentença, sem se julgar devidamente em si, qualquer caso, isolado que seja. «Viriato», o maior humanista do seu tempo, tendo sob o seu domínio o julgamento dos criminosos e dos ladrões, nunca dava a sentença no próprio acto do julgamento. Deixava sempre que, pelo menos, uma noite se passasse sobre a sentença suspensa, para, dizia ele, nunca incorrer na injustiça, deixando-se arrastar pelo ardor das paixões. E o certo é que o grande homem de tão justo nos seus procedimentos, para com tudo e todos, era o orgulho e a admiração do seu povo e do seu rei.
Mas tu, não; foste intransigente, pois não procuraste raciocinar o caso e, assim, não hesitaste em ser cruel nas tuas apreciações, ferindo-me no âmago dos meus mais caros sentimentos.

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